NOVAS FORMAS DE LUTA E DE ORGANIZAÇÃO: UMA NECESSIDADE
Em meados da década de 60, do século passado, Marx já dizia verdades tão contundentes, tais como esta: "Como capitalista, ele (o capitalista) é apenas capital personificado. Sua alma é a alma do capital. O capital tem um único impulso vital, o impulso de valorizar-se, de criar mais-valia, de absorver com sua parte constante, os meios de produção, a maior massa possível de mais-trabalho. O capital é apenas trabalho morto, que apenas se reanima, à maneira de vampiros, chupando trabalho vivo e que vive tanto mais quanto mais trabalho vivo chupa. O tempo durante o qual o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho que comprou. Se o trabalhador consome seu tempo disponível para si, então rouba ao capitalista". Porque sua obra se encontra toda plena de princípios e afirmações como estas, é que se constata a imensa atualidade de Marx, que os intelectuais da burguesia tanto insistem, em vão, em difamar e negar.
Ou seja, quando o trabalhador se torna incapaz, pelo uso (melhor dito: pela exploração) ou porque não encontra ocupação, para ceder mais-valia ao capitalista, isto é, quando não se torna mais apto para que o capitalista sugue mais uma gota de mais-valia dele, o trabalhador vai para a rua, sem dó e sem piedade, onde só o desespero, o desemprego, a miséria e a morte o esperam. Nenhum capitalista se importa com isto, nem um pouco. Se, todavia, o trabalhador, agora desempregado, torna-se, por força da nova situação, um "marginal", a burguesia e seu Estado têm para ele uma outra novidade: a polícia, a repressão, a cadeia, o (grupo de) extermínio. Depois de tudo isto, o capitalista vai à Igreja (agora nem vai mais), faz a sua confissão, distribui umas sopas e umas esmolas, às quais dá nomes pomposos como "comunidade solidária" e outros mais ridículos ainda, e vai dormir em paz consigo mesmo e pronto para dar continuidade à sua rotina: chupar, em outro canto — na fábrica, no local de trabalho em geral — mais mais-valia, explorar, demitir e exterminar mais e mais trabalhadores.
É esta a triste rotina do mundo do capital, desde que o capitalismo apareceu na face da Terra, e será esta a sua cada vez mais triste rotina, enquanto o capitalismo perdurar. De outra forma não se consegue explicar porque, segundo dados da própria ONU, dois dos seis bilhões de seres humanos hoje existentes no mundo estão desempregados ou envolvidos na chamada "pobreza absoluta", ou porque, nos últimos trinta anos, cerca de metade da população de toda a África foi literalmente dizimada. E ninguém lamenta o fato, o qual, de tão banal que foi feito, parece não ter acontecido. Se, porém, morre, de enfarte, derrame cerebral, acidente de avião ou de carro de luxo qualquer, um alto filhote, representante ou dignitário do capital, aí sim, são-lhe erguidos sucessivos e caríssimos monumentos e a mídia, por uma boa dezena de anos, não deixa de falar do fato com todos os elogios que o caso (não) requer.
Isso só quer dizer o seguinte: o capitalista, a pessoa do capital, nunca faz concessões de graça e de bom grado a trabalhador nenhum. A classe capitalista nunca recorre a qualquer atitude de congraçamento, ajuda, solidariedade ou o que quer que seja, de parecido com isto, à classe trabalhadora. Ela, melhor do que ninguém, só entende uma coisa: que ela, a burguesia, é inimiga da classe trabalhadora, e que a classe trabalhadora, por isso mesmo, só pode ser também inimiga sua—e que não pode ser diferente disto. A burguesia entende que entre uma classe, como a sua, e a classe explorada à míngua, no caso a classe trabalhadora, não pode haver qualquer relação de harmonia, humanidade, solidariedade, companheirismo, parceria e respeito. Trata-se apenas de manter, sob exploração e controle, um mal necessário: ela precisa da classe trabalhadora, da qual chupa a mais-valia, o suor e o sangue, sem o que ela não acumula sua riqueza, mas sabe também que, por isso mesmo, tem de mantê-la sob implacável dominação e rigoroso controle. Eis os exatos termos da equação.
A POLÍTICA DA CONCILIAÇÃO DE CLASSES
Quando a burguesia concerta um acordo com algum segmento da classe trabalhadora, acordo este geralmente levado a efeito pela intermediação de um partido político, de um sindicato ou de uma central sindical, ela nunca chega a um tal acordo pensando em perdas, mas sempre em como fazer mais um "bom negócio". Ela só eventualmente perde, quando a classe trabalhadora, nos momentos em que se encontra forte e organizada, impõe os termos do acordo. Fora de tais circunstâncias, a burguesia nunca sai perdendo num acordo concertado "entre as partes". Assim mesmo, ela é mestra em transformar perdas sofridas sob pressão em imensas vantagens tão logo as condições e circunstâncias voltem a lhes ser favoráveis — motivo mais do que suficiente para que a classe trabalhadora deva julgar-se sempre em estado de alerta contra as manobras e toda a exploração capitalista.
Por este motivo, é que não passa de mera atitude de conciliação de classe o hábito que têm os dirigentes de partidos políticos social-democratas e reformistas, de sindicatos e de centrais sindicais de proporem aos trabalhadores "acordos" que, segundo eles, vão assegurar salários e empregos em momentos, principalmente como os de agora, nos quais, para os capitalistas, a única coisa que tem importância é enxugar, isto é, demitir, diminuir custos, para manter ou elevar sua taxa de lucro, ou, em outras palavras, para salvar sua taxa de mais-valia (que mede a relação entre o trabalho não-pago e o salário efetivamente recebido). Como vemos todos os dias, estes "acordos", todos eles feitos, antecipadamente, a portas fechadas, e que só chegam às assembléias dos sindicatos depois de convenientemente acertados entre dirigentes sindicalistas, patrões e governo, prometem dar garantias de emprego, geralmente com redução salarial e com a subtração de todos os velhos e conquistados direitos trabalhistas, por "mais alguns meses", desde que aos capitalistas sejam garantidas algumas vantagens: mercado, rebaixamento de impostos e da taxa de juros e outras mais, das quais resulta exatamente o aumento do grau de exploração do trabalho sem que nenhuma das aludidas vantagens acenadas para os trabalhadores seja, de fato, posta em prática ou, quando posta em prática, duradoura.
Os sindicatos e as centrais sindicais tornaram-se apenas isso: deixaram de ser órgãos que lutavam, de qualquer maneira, pelas melhorias de salários e de condições de trabalho, para tornarem-se meras correias de transmissão dos interesses dos capitalistas no seio das categorias e da classe dos trabalhadores em geral. Tornaram-se apenas órgãos do Estado, do governo, do capital. Eles e elas, sindicatos e centrais, e os seus dirigentes, os sindicalistas.
O SINDICATO COMO EMPRESA CAPITALISTA
Mas nada disso aconteceu por acaso. O Estado, depois de inúmeras investidas, acabou por integrar o sindicato e a central ao seus sistema de poder, à sua ideologia, à sua estrutura, mesmo que indiretamente. Os sindicalistas aprenderam que do sindicato e da central só lhes restam algumas poucas mas importantes funções: manterem-nos como casta sedentária, que não trabalha e que vive e se reproduz às expensas da estrutura sindical; e servirem de trampolim para o Parlamento, para as prefeituras, para as governadorias, para as chefias de empresas. Os próprios sindicatos — como o dos bancários ou o dos metalúrgicos de São Paulo — tornaram-se, finalmente, empresas capitalistas, uma vez que, explorando hotéis, gráficas, restaurantes, financeiras, clubes ou aplicando no mercado financeiro, também exploram a mais-valia dos trabalhadores, desta vez empregados seus.
Assim, sindicatos e centrais, tais como os seus dirigentes, tornaram-se apêndices da burguesia, o que nos leva a compreender que agora sindicatos e centrais e dirigentes sindicalistas têm mais motivos do que antes para não lutar do lado dos trabalhadores, mas, pelo contrário, para acertar "acordos" que estejam de conformidade com os seus interesses, que são, para concluir, os mesmos interesses dos capitalistas, parceiros e amigos seus — de quem são "gente de confiança". Eis o que aconteceu com os senhores Medeiros, Meneghelli, Lula, Vicentinho e os seus pequenos seguidores da Força Sindical e da CUT, que já não se distinguem mais no seio do mesmo peleguismo ou, no Congresso, de deputados e senadores do PFL, do PSDB, do PTB ou do PMDB—e que têm garantidas as verbas ou "contribuições desinteressadas", por parte de muitos capitalistas, alguns deles corruptos por demais conhecidos, para as campanhas eleitorais dos nossos ex-sindicalistas. Os que já foram sindicalistas já não o são mais: são deputados, prefeitos, governadores, ministros ou candidatos a Presidente, agora desfrutando das monumentais mordomias nesses casos todos; os que já são isso nunca mais voltarão ao sindicato e nem, muito menos, à luta pela emancipação dos que trabalham e dos que não têm trabalho.
De onde se conclui que partido oficial, isto é, institucional, inscrito na legislação e no sistema de controle do Estado, tanto quanto sindicato e central, sujeitos ao mais livre e espontâneo controle por parte do Estado, do governo e, portanto, da burguesia, são formas que não servem mais às lutas dos trabalhadores; são formas que não sobrevivem para lutar pelas conquistas dos trabalhadores, mas, pelo contrário, para ajudar a burguesia a retirar todas estas conquistas que levaram décadas de muita luta para serem logradas. De onde também se conclui que, de igual forma, e pelas mesmas razões, também deputados, senadores e dirigentes sindicalistas, tornaram-se sinônimos de inimigos dos trabalhadores e de suas causas, porque se tornaram prolongamentos da classe burguesa, dentro e fora do Parlamento, no Congresso ou na mesma estrutura sindical. Uma outra conclusão também se retira da mesma análise: é que as "lutas" propostas por esses senhores e essas instituições não são lutas, mas tão somente acordos pelos quais o capital aprofunda seu grau de exploração da classe dos trabalhadores, o desemprego dela, a marginalização e exclusão social da mesma.
AS NOVAS FORMAS JÁ ESTÃO NASCENDO
Não é por mero acaso que as primeiras manifestações de luta que voltam a acontecer nesses últimos anos de acirramento da crise abandonam a estrutura sindical, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, o Movimento Sem Teto, os motins dos soldados do ano de 1997 e outros movimentos mais espontâneos. Se repararmos bem, tais formas já diferem da forma-sindicato ou da forma-central. Diferem em que não estão atrelados ao Estado, na forma como elegem seus dirigentes, não esperando aprovação dos órgãos do governo para realizarem as eleições de seus dirigentes; diferem nas táticas de enfrentamento que levam a efeito nas suas lutas, que não são táticas discutidas com o patronato; diferem na radicalidade de muitas de suas lutas, as quais, ainda que na maioria das vezes, radicalidades apenas parciais; diferem na estrutura das próprias formas, que são desatreladas do Estado e que são descentralizadas a partir de determinados níveis — e assim por diante.
Mas nem tudo é perfeito, e muito menos um modelo inconteste. Muitas delas não conseguiram fazer uma renovação completa e ainda dão sinais de defeitos que não podem passar desapercebidos. As inovações, em que já avançaram, dão-nos uma pista acerca de como deverão ser as formas de luta e as próprias lutas daqui por diante, principalmente quando esta crise, que nos atormenta, aprofunda-se a olhos vistos apenas apontando para os trabalhadores dias muito piores do que todos aqueles pelos quais têm passado até aqui — dias que, para serem enfrentados, vão reclamar dos trabalhadores muito mais do que órgãos e formas de luta, como as que foram utilizadas até aqui e que já se encontram em avançado estado de putrefação, no centro das quais se encontram os partidos social-democratas e reformistas, os sindicatos e as centrais sindicais, os quais, aliás, e não por acaso, se esvaziam cada vez mais rapidamente.

