MÍDIA E ALIENAÇÃO
Excelente o artigo de Fernando da Rocha Perez, poeta e professor do Departamento de História, da UFBA, sob o título "Uma Foto", publicado no jornal A TARDE, de Salvador, de 01.06.99.
Nele, o autor demonstra toda sua indignação ao descrever cena de uma foto, publicada num jornal do sul do país, em que aparece, sentado a uma mesa de mármore, tendo no plano de fundo conhecida logomarca em forma de M, fixada em vidro de lanchonete, "um senhor careca e tristonho, com sua farda, alamares e medalhas, que traça com avidez e fome uma coisa que come. No peito do cidadão, contáveis e visíveis, dez medalhas que glorificam a história de sua vida".
Absolutamente normal seria esta cena, na Rússia de hoje, não fosse a legenda da foto: "Veterano do Exército come sanduíche oferecido por loja McDonald’s de São Petersburgo em homenagem à vitória soviética na II Guerra Mundial, comemorada em 9 de maio".
Justa a indignação do professor; porém no Manifesto Comunista, escrito em 1948 — e tão atual —, Marx e Engels já afirmavam: "a burguesia despojou de sua auréola toda ocupação até então considerada honrada e encarada com respeito". E mais adiante completavam: "...a eterna agitação e incerteza distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Suprimem-se todas as relações fixas, cristalizadas, com seu cortejo de preconceitos e idéias antigas e veneradas; todas as novas relações se tornam antiquadas, antes mesmo de se consolidar. Tudo que era sólido se evapora no ar, tudo que era sagrado é profanado." (grifo nosso).
Hoje em dia a banalização é feita por intermédio da mídia. Um exemplo recente dessa banalização de ocupação antes considerada honrosa e encarada com respeito é o do padre Marcelo Rossi, transformado em mito da Igreja em crise. Seu desempenho como "padre pop" teve apoio incondicional da mídia a promovê-lo num bem elaborado trabalho de marketing. A revista Veja, de 09 de junho de 1999, publicou entrevista com o administrador de empresas Antônio kater Filho, ligado à Igreja, em que se lê: "o padre Marcelo Rossi é um excelente produto. Seus pontos fortes são a simplicidade e o grande apelo emocional. Além disso, as mulheres se sentem atraídas pelo jeito de garotão dele. Com um produto desse, o lucro é sempre certo".
Lapidar. "Erguei as mãos!". Mais claro do que isso só a neve alvejando no Monte Branco. Sim, a mídia transformada em monstro sagrado pela burguesia, é esse aríete que arrebenta todas as portas e invade todos os lares, levando imagens ou mensagens que visam o consumo ou o entretenimento de massa.
O fenômeno aqui no Brasil começa a ganhar corpo, coincidentemente, com a implantação da ditadura militar, que, inteligentemente, apressou-se em desenvolver a mídia, sobretudo a televisiva, como poderoso instrumento de alienação. Seus programas e novelas ditam a moda (sandália da Carla Perez, bolsa da sadia, usada pela Débora Bloch) e os costumes; os âncoras do telejornalismo decidem por nós o que é certo e o que é errado. Confortável, muito confortável...
Todo o sistema está voltado para a reprodução do capital. Tudo fira subliminarmente, em torno disso. Não importa a qualidade, importa o que pode ser vendido, o que pode gerar lucros. Na área musical, prevalecem os interesses da indústria fonográfica, após um processo de "fazer a cabeça das pessoas".
Os bons compositores são sufocados pela onda de mediocridade que domina o mercado. Jogadores de futebol, transformados em heróis de fancaria, de forma constrangedora, ocupam importantes espaços na TV com ridículas entrevistas. Aliás isso não é especialidade somente deles. Basta assistir a programas como os da Xuxa, de Hebe Camargo, Faustão, Gugu, etc. Outros tantos exploram as mazelas do povo em benefício próprio, obtendo polpudas compensações.
Como existe, atualmente, uma carência de "heróis" de futebol e de corridas de automóveis, tenta-se criar um novo ídolo num esporte que nada tem de raiz popular — o tênis —, mas não está fácil. Não faz mal; temos "Catita", a cadela que salvou uma criança atacada por um "pitbull". A propósito, esta "heroinina" (herói canino do sexo feminino) percorreu, silenciosamente, o Brasil, participando de eventos e, se falasse, teria feito palestras sobre princípios de solidariedade há muito ausentes nas comunidades humanas.
Mas sua ação fez escola. Logo após, outro pequeno "herói" da raça "poodle", em Salvador, praticou ação semelhante e teve seus dias de glória na mídia. Pena que nenhum deles morreu, pois, se tivesse acontecido, teria honras de herói, até com salvas de uivos...
Essas basbaquices não têm limites. Há cerca de dois anos, um bombeiro, nos Estados Unidos, num ato heróico, salvou uma criança. Pouco tempo depois, nas bandas desse Brasil, cena semelhante foi flagrada pela TV, no mesmo enquadramento. Nos Estados unidos, estudantes fanáticos fuzilaram seus colegas e ainda colocaram bombas na escola. Imediatamente, atos semelhantes passaram a ser noticiados com freqüência por aqui, como se tais atos absolutamente não existissem antes.
Há muito não se falava em "serial killer", ou, no bom português, "assassino em série", até que o motoboy (epa!) Francisco de Assis estuprou e matou cerca de uma dezena de mulheres. A mídia, que não encontra dada importante para noticiar nesse paraíso, que é o Brasil, aproveitou para deitar e rolar sobre o assunto. Não satisfeita, começou a descobrir outros motoboys suspeitos de serem estupradores, como se a categoria fosse funcionalmente criminosa, até encontrar um sósia de Francisco de Assis que se propunha a superá-lo nos seus atos. Mas o assunto já estava gasto e não pegou.
Morte dos Mamonas Assassinas, o Assalto a Gerson Brenner e sua via-crucis, já esquecida, morte de Ayrton Senna, joelho de Ronaldinho, etc., tudo isso faz parte do processo de empulhação; e não tem nada de ingênuo. O objetivo é anestesiar as pessoas e torná-las incapazes refletir sobre problemas reais e complexos, pensando em alternativas não convencionais para sua solução. Alienar para dominar, eis a finalidade.

