TRABALHAR PARA VIVER OU MORRER DE TRABALHAR?
Uma breve pergunta: O que causa o maior número de mortes de trabalhadores no mundo? O trânsito, a violência, os conflitos armados, a AIDS?
A resposta correta está longe de ser qualquer uma das alternativas acima. Segundo dados divulgados no XV Congresso Mundial sobre Segurança e Saúde no Trabalho, realizado em meados de abril, em São Paulo, ocorrem 250 milhões de acidentes de trabalho por ano no mundo, o equivalente a 685 mil acidentes por dia, 475 por minuto, nove por segundo. Eles resultam em 1,1 milhão de mortes, o que significa dizer que os acidentes do trabalho matam 3 mil pessoas a cada dia ou 2 pessoas por minuto.
Estes números são da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e foram publicados no jornal A Tarde, de Salvador, de 12.04.99 e, pelo jornal do XV Congresso, número 2, de 13.04.99.Só para fazermos, também, uma breve comparação, o número de mortes relacionados ao trânsito é de 990 mil ao ano. Em guerras morrem, em média, ao ano, 502 mil pessoas. A violência é responsável pelo desaparecimento de 563 mil pessoas e a AIDS leva à morte cerca de 312 mil, a cada ano.
Estes números assaz assustadores servem para analisar as péssimas condições de trabalho a que as pessoas são submetidas. Não só isso, mas, também, para indicar o nível de exploração dos trabalhadores que, com a intenção de manter os seus empregos, são forçados a colocar as suas próprias vidas em risco. Os números são bastante reveladores. Todavia, eles são frios à medida que as estatísticas não levam em consideração toda uma carga de sofrimento e dor a um número muito maior de pessoas envolvidas, sejam elas familiares, amigos, companheiros de trabalho, etc.
Mas uma outra realidade está por detrás desta. Muitas das mortes desses trabalhadores estão relacionadas diretamente à sobrecarga de trabalho. Em outras palavras, quem está no mercado de trabalho tem de trabalhar muito além da sua capacidade física e psíquica, o que leva à ocorrência de tais acidentes. Mais ainda, esse tipo de exploração contribui, pari-passu, para as empresas "modernas" promoverem cada vez mais os chamados enxugamentos ou a diminuição do seu quadro de pessoal. Essa é mais uma das grandes contradições do modo de produção capitalista: os que trabalham estão sujeitos a morrer de tanto trabalhar, enquanto outros, e em número cada vez maior, morrem porque não têm meios de se sustentar.
O AUMENTO DAS DOENÇAS RELACIONADAS AO TRABALHO, NO BRASIL
Entre 1973 e 1997, o registro de doenças ligadas ao trabalho aumentou 700%. O maior crescimento está concentrado nesta década. Só entre 1993 e 1997, o índice de casos registrados em relação ao número de trabalhadores segurados subiu 161%. Estes números são revelados pelo jornal Folha de S. Paulo, em sua edição de 04.04.1999, caderno 6, página 10. No entanto, esse mesmo jornal alerta que tais números são maquiados, vez que muitas empresas informam números menores ao INSS, o que é chamado de subnotificação. O próprio jornal reconhece que o aumento das doenças ocupacionais está relacionado diretamente com a sobrecarga de trabalho, decorrente da política de enxugamentos dos quadros de funcionários promovido pelas empresas.
Aqui vale um registro que o jornal omite: a forma como esses doentes são tratados pelas empresas e pelos órgãos de saúde, tanto os públicos como os privados. Hoje está sendo travada um verdadeira batalha contra os doentes acometidos pelos mais diversos males. Há um sem número de denúncias por parte de pacientes acerca dos maus tratos recebidos por médicos, sobretudo do INSS e, especialmente, no estado da Bahia, que têm dado alta médica a muitas pessoas que não reúnem a mínima condição para o exercício de quaisquer atividades, quanto mais a profissional, aliás, a atividade que deu origem à doença.
Esses médicos vêm agindo em conluio com o Ministério da Previdência, com o intuito de diminuir gastos, e têm "devolvido" pacientes para as empresas que, por sua vez, não os querem de volta porque eles (os doentes) não reúnem condições para trabalhar. E quando as empresas os recebem, como é o caso do Banco do Brasil, esses trabalhadores engrossam de imediato as listas de "excedentes", ou seja, ameaça eminente de demissão.
Toda essa situação nos remete a uma reflexão: trabalhar não é sinônimo de doença ou morte. Se os que ainda estão empregados trabalham muito é porque muitos estão excluídos do processo de produção. Queremos, sim, emprego para todos. Queremos, também, tempo para a educação, para o lazer, para o esporte, para cuidar das filhas , dos filhos, das amigas e dos amigos, tempo para a realização do amor, ou seja, tempo para nossa realização como seres humanos.

