O QUE NOS ENSINA A GREVE DOS CAMINHONEIROS?
Quem diria que um movimento sem maiores pretensões, como a greve dos caminhoneiros ocorrida no último mês de agosto, fora dos padrões tradicionais de luta, sem ter apoio de nenhum sindicato ou central sindical, poderia causar tantos problemas ao governo de FHC? Por mais que seus líderes não tenham tido esta consciência, por mais que venham futuramente, como tudo indica, usar esse movimento como trampolim para chegar ao Parlamento e outras instâncias do Estado burguês, os acontecimentos tomaram um rumo quase incontrolável. É através dele que tentaremos fazer algumas inferências, a partir de uma análise mais detida dos fatos.
Situações como a ocorrida atestam que o sistema mostra cada vez mais suas fissuras, e, para elucidar os imbróglios deste sistema, podemos relacionar os seguintes aspectos: a) a contradição entre a realização das mercadorias, na venda dos automóveis e a circulação de outros produtos via estrada de rodagem, o chamado sistema unimodal; b) a crise globalizada do capital e do seu atual modelo (neoliberalismo) privatizando o Estado; c) o retorno de movimentos de massa por fora da estrutura institucional; d) a função do Executivo, do Judiciário, da Polícia, das Forças Armadas, enfim, do verdadeiro papel do Estado como órgão de repressão da classe dominante sobre as outras classes.
INFRA-ESTRUTURA E ESTADOFoi o Estado brasileiro que montou toda a infra-estrutura industrial em uma época em que o capital privado não podia e nem queria correr os riscos com esses empreendimentos. No governo JK esse processo acelerou-se facilitando a vinda de empresas multinacionais, principalmente aquelas do setor automobilístico, porém resultando no endividamento do tesouro. A construção de rodovias, fazia parte do Plano de Metas, ainda mais que essas vias federais e estaduais impulsionariam a venda de automóveis. Assim, a necessidade das montadoras foram sendo satisfeitas nesse governo, como também nos futuros, passando pelo regime militar e chegando no atual (ACM que o diga!).
Contudo, a contradição com a outra ponta do capital, a circulação, também começava a se formar. Hoje, 70% das mercadorias brasileiras chegam ao seu destino sobre rodas, pois o sistema de cabotagem e as ferrovias, mesmo privatizadas, quando muito, atende a um pequeno número de empresas, e, pior, no caso dos trilhos, seu uso geralmente é exclusivo da companhia que o privatizou com uma única intenção: diminuir os custos com translado de produtos inter-unidade de produção.
Por mais que se queira subtrair o peso do transporte rodoviário, ampliando o uso de outros meios, criando um sistema bimodal (caminhão-navio), trimodal (caminhão-trem-navio) ou multimodal, o tempo e os custos, assim como os interesses de diferentes setores em jogo, impõem um processo demorado e tortuoso.
PRIVATIZAÇÕES E EXCLUSÃOO segundo aspecto é originário da contradição geral do sistema capitalista. É a prova de que ele não cabe mais dentro de si. Vimos, no caso do Brasil, que o Estado foi o genitor de toda a infra-estrutura industrial e que sem ele o capital privado não sobreviveria. Agora, a necessidade, justificada pelos mesmos capitalistas, mudou de lado. São as empresas privadas que devem gerenciar e se apoderar dessa fatia do mercado. Privatizar um Estado incompetente, endividado e sem competitividade, esse é o lema dos arautos do neoliberalismo.
Segundo alguns estudos, para melhorar a malha rodoviária nacional, os investimentos teriam que chegar próximo de U$ 60 bilhões. Apesar da futura cobrança do imposto sobre os combustíveis, o chamado imposto verde, o governo está de mãos atadas para essas alavancagens; daí transferir para as concessionárias parte dos trechos rodoviários. Só que as mesmas empresas, ávidas por lucros, cobrando pedágios cada vez maiores, aumentam os custos das mercadorias transportadas. A título de exemplo, o preço pago por um caminhão que percorre o trecho São Paulo-Rio de Janeiro é de R$ 100,00. Então, a competitividade, tão propalada, passa a ser anulada por essa contradição.
São contradições como esta que levam as diferentes facções burguesas a disputar o controle do Estado. Como muitas vezes a lógica da competitividade direta não funciona, esse aparelho pode, por artifícios diversos ou políticas econômicas, como foi o caso do Plano Real, ou por rapinagem indireta - cobrança de impostos para subsidiar custos de produção -, ou rapinagem direta - desvio, para seus empreendimentos, da renda da população, vide PROER e isenção fiscal para montadoras - compensar a queda da taxa de lucro de alguns setores.
Quando os caminhoneiros se levantaram contra o quinto aumento dos combustíveis, contra a indústria de multas aplicadas, contra o preço dos pedágios, mesmo que dentro de um quadro restrito da categoria, estavam lutando contra um Estado que de um lado, serve cada vez mais aos interesses de poucos grupos econômicos e, de outro, retira o direito à saúde e educação, deixando a miséria crescer exponencialmente.
NOVAS FORMAS DE LUTA?Quanto ao terceiro aspecto aqui levantado, o mais importante a destacar é que os caminhoneiros, apesar de serem trabalhadores autônomos, dispersos pelos quatros cantos do país, perceberam a necessidade de passar por sobre a autoridade das entidades institucionalizadas, como os sindicatos e centrais, e se organizaram a partir de um núcleo, o chamado Movimento União Brasil Caminhoneiro.
Enquanto o principal sindicato da categoria, com pouco menos de 1800 filiados, tentava, por vias burocráticas, encaminhar a proposta da categoria, o núcleo do Movimento União Brasil Caminhoneiro consultava a categoria e organizava a paralisação por meio de boletins e programas de rádios. A própria preparação da greve, há seis meses, foge dos padrões atuais e serve de lição para todos os trabalhadores.
Foram mais de 700 mil caminhoneiros parados em todo o território nacional, afetando gigantes como a GM, Fiat, Mercedes e a Chrysler, no ramo automobilístico, ou a Parmalat, Perdigão e a Ricco, no ramo de alimentos. Isto provocou a ira dos capitalistas, fazendo com que o presidente da FIESP, Horacio Lafer Piva, recorresse a um poeta alemão, Goethe, para expressar sua revolta contra os caminhoneiros que estavam parando também a produção: "É melhor um fim com horror do que um horror sem fim". E eles cumpririam a tal ameaça, fiquem certos, para defender o edifício que forma a sociedade capitalista.
A demonstração de organização e radicalização do movimento trás à baila as antigas, porém renovadas, lutas diretas que marcaram os movimentos de massa no Brasil e no mundo. E mais ainda, ajudam a cimentar nos jazigos da história, as formas institucionais de organização, os sindicatos e as centrais sindicais. Podemos passar para o quarto aspecto, relacionando-o com os três primeiros. Antes, devemos dar um aviso de utilidade pública para aqueles que acreditam que a luta de classes acabou: Perigo, pista exclusiva para quem não perdeu o caminhão da história.
OS CAPITALISTAS E SEU ESTADOVimos, e esses desatentos intelectuais burgueses também, qual é a atitude do Estado quando os interesses dos capitalistas estão em jogo. Em três dias de piquetes pelas estradas, todos os órgãos do Estado foram acionados para reprimir o movimento. As imagens de fotos e da televisão falaram ao público quando a polícia de choque, liderada pelo democrático governador Mário Covas, espancou os caminhoneiros, atacados por bombas de gás e sendo também quebrados os pára-brisas dos caminhões. Vimos como o Judiciário se mobilizou para incriminar os líderes do movimento, acusando-os de desrespeito às leis. Vimos o "perseguido" da ditadura militar, hoje então Presidente da República, colocar em alerta as Forças Armadas para uma possível intervenção, caso não fosse suspensa a paralisação.
A própria avaliação do governo, sendo ele monitorizado pelos velhos arapongas do Serviço de Informação, dão prova de que foram as intervenções combinadas da mídia e da Polícia de São Paulo que tiveram papel determinante na desarticulação do movimento. Um movimento dessa estirpe elucida, na prática, que o Estado não é uma entidade neutra, acima de todos os interesses, mas, sim, que ele é um aparelho de repressão e de persuasão da classe dominante contra as classes dominadas.
Para nós trabalhadores, a luta dos caminhoneiros deixa vários ensinamentos. O mais importante, além dos mencionados acima, é que a crise do capital abre as portas para o renascimento de lutas verdadeiramente autênticas dos trabalhadores e que podemos vislumbrar a possibilidade de construir uma sociedade sem exploradores e explorados, uma sociedade verdadeiramente socialista.

