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O FUTEBOL BRASILEIRO NA ATUALIDADE


Ao passearmos um olhar pelo Brasil desde as planícies e serras gaúchas até a densa floresta amazônica, passando pela imensidão de sua costa, certamente encontraremos muitas coisas em comum, tanto nas grandes cidades, quanto nos minúsculos povoados. Uma igreja, praças, arquitetura, vegetação, língua, o povo e  um campo de futebol. Se não um campo, uma quadra, uma praia, uma várzea ou até uma “serragem” produzida por uma madeireira. O certo é que teremos um ou mais espaços destinados à prática do futebol.

Quem nunca presenciou uma bela prosa ao “pé do balcão” de uma venda ou bolicho à beira de uma estrada no interior, ou de um botequim no centro de uma grande cidade, cujo assunto era o futebol?

O futebol, um alienígena que em pouco mais de um século de estada neste país, passou a compor o imaginário do povo brasileiro de tal maneira que se torna insuportável para quem não o admira.

Certamente o futebol não é uma unanimidade nacional. Mas a sua importância enquanto aglutinador de massas foi percebido pelos governos,  políticos, empresários, intelectuais e críticos desde a sua chegada ao Brasil, em 1894, trazido pelas mãos (ou seria pelos pés?) dos ingleses.

Em sua trajetória o futebol produziu verdadeiros “mitos sagrados” a exemplo de Friendereich, que atuou por várias equipes nas primeiras décadas do século XX, reconhecido pela FIFA, como o maior artilheiro conhecido deste esporte, com a marca de 1329 golos. Outros, como Domingos da Guia, Fausto, Leônidas da Silva, o Diamante Negro (que ganhou em sua homenagem uma marca de chocolate, existente até hoje), Zizinho, o mestre Ziza, o maior craque antes da era Pelé, Nilton Santos, o enciclopédia (sabia tudo de futebol), e Pelé, considerado o Rei, o jogador mais completo que o futebol conheceu.

Ainda hoje este esporte continua fabricando e exportando craques para o resto do mundo

Não obstante os tropeços que o Brasil tem dado nas atuais eliminatórias,  ele é o único país a estar presente em todas Copas do Mundo realizadas até hoje. 

No entanto, o torcedor brasileiro tem notado mudanças substancias não só na forma de jogar o futebol, como, também, na sua forma de dirigir e administrar.

O futebol brasileiro definitivamente “não é mais aquele”. Dentro do campo ficou menos artístico, menos habilidoso, menos original, mais rápido, mais pesado e mais previsível. Os jogadores viraram atletas musculosos e enrijecidos e as comissões técnicas mais parecem executivos de uma  grande empresa  ou diretores de banco. Fora do campo, inserido na lógica capitalista do mercado, o futebol tornou-se um grande negócio e, por conseguinte,  passou a freqüentar as páginas e os cadernos de jornais e revistas, destinados a temas como economia, investimentos, finanças e bolsas de valores.    Transformou-se, ainda, em objeto de estudos acadêmicos, seminários promovidos por jornais, universidades e fundações.

A MODERNIZAÇÃO DO FUTEBOL

A estrutura do futebol brasileiro começou a caminhar para a chamada modernização, quando teve necessidade de superar a crise dos anos 80. Nesse período, marcado pelo esvaziamento dos estádios, baixa qualidade dos jogos, campeonatos deficitários e desorganizados, foi colocado em xeque o modelo protecionista do Estado Militar, dando lugar para um novo modelo, inspirado nas leis do  mercado e dos negócios privados. É dessa época, só para citarmos um exemplo, o aparecimento da publicidade nas camisetas dos times de futebol.

A partir de então, o futebol configurou-se em um negócio altamente rentável, impondo novos procedimentos à formação de jogadores, à relação contratual entre jogador e clube, às condutas dos torcedores nos estádios e ao gerenciamento das entidades esportivas. Assim, o futebol definitivamente entrou no rol das empresas privadas com a intenção de auferir lucros.

Com essa nova visão (visão empresarial), o grande desafio colocado ao futebol-empresa é converter torcedores em consumidores dos produtos dos clubes, adequando ou transformando estádios em arenas de multi--uso, com espaços para lojas, cinemas, shows musicais, museus, bares, restaurantes temáticos e, também, é claro, jogos de futebol.

Os exemplos a serem seguidos estão espalhados pelo mundo, mais notadamente na Europa e nos EUA - não por coincidência, os dois maiores centros do capitalismo - como o time inglês Manchester United (o clube mais rico do planeta e que tem suas ações negociadas na Bolsa de Valores de Londres),  Barcelona da Espanha (que não exibe publicidade em suas camisas, mas possui mais de 100 mil sócios contribuintes), Ajax , da Holanda, com o seu moderníssimo estádio e a liga norte-americana de basquete, a tão aclamada NBA.

Deste modo, estamos presenciando o nascimento do torcedor VIP, que na verdade nada mais é do que um cliente, um consumidor de produtos licenciados dos clubes, tornando mais difícil ainda a ida ao estádio do torcedor de baixa renda.

Estima-se que o futebol brasileiro movimenta algo em torno de US$ 2 bilhões/ano. Sem dúvida que os valores são altos, todavia  insignificantes se comparados com o movimento mundial desse esporte, cotados hoje em US$ 250 bilhões/ano. O futebol sozinho abocanha ¼  do faturamento mundial da indústria de entretenimento, avaliados anualmente  em US$ 1 trilhão. Em outras palavras:  o Brasil que é chamado de o país do futebol, tem uma participação ínfima de menos de 1% do mercado global deste esporte.

Com essa pequena participação, o futebol  que no Brasil  possui cerca de 113 milhões de torcedores cativos, torna-se um potencial de negócios que não tem paralelo no mundo e que impressiona aos chamados grandes investidores internacionais. E eles, é claro, já estão por aqui.

Nomes como Hicks&Muse, ISL, Nations Bank, Opportunity, antes desconhecidos dos torcedores brasileiros, são agora associados a Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Grêmio, Vasco, Bahia e outros.  É o capital internacional em forma de fundo de investimentos, empresas de marketing e bancos chegando ao Brasil como modelo de gestão profissional para os clubes de futebol. Modelos de co-gestão como do Palmeiras/Parmalat, Corinthians/Excel, foram um estágio de aprendizado para esta nova etapa.

Neste novo modelo de gestão não há uma única de forma de gerir os negócios. De acordo com o professor do Instituto de Economia da Unicamp, Marcelo Weishaupt Proni, no caso do Corinthias/HMTF, o clube paulista que detém a maior torcida do estado de São Paulo e a segunda maior do país, cedeu o controle do seu departamento de futebol por um período de dez anos, pela bagatela de R$ 53 milhões, mais um estádio multiuso para 45 mil torcedores e 15% de participação na Corinthians Licenciamento Ltda., empresa encarregada de explorar e administrar os direitos de imagem da marca do clube.

A ISL, empresa suíça de marketing esportivo,  que no Brasil tem parceria com a Pelé Sports, desembolsou mirrados US$ 80 milhões (menos de duas vezes o passe do atacante da seleção italiana Vieri, vendido no ano passado por US$ 43 milhões), para controlar durante quinze anos o ativo mais valioso do futebol brasileiro, o do Flamengo, do Rio de Janeiro, clube que possui a maior legião de torcedores no Brasil. Está muito claro que este investimento não é à toa, pois a própria empresa calculava que a marca Flamengo podia gerar receitas brutas de cerca de US$ 150 milhões por ano.

Recentemente, conforme o jornal Gazeta Mercantil, de 20.07.2000, página C-5, a mesma ISL firmou parceria com o Grêmio Football Porto Alegrense, cujos detalhes do contrato não foram divulgados. O  namoro que começou em 1999 só pôde avançar em virtude das alterações na Lei Pelé que antes das emendas sofridas não permitia que uma mesma empresa estivesse presente em mais de um clube.

É necessário dizer que a ISL é responsável pela comercialização de direitos de tevê, vídeo e outras mídia eletrônicas, patrocínios, licenciamentos e merchandising de federações esportivas internacionais, entre elas a FIFA, a Federação Internacional de Futebol, que não por acaso também tem a sua sede na Suíça, onde esse novo modelo de gerir o esporte começou a dar os primeiros passos. 

A situação do Vasco da Gama e o Nations Bank/Liberal é um pouco diferente, pois o banco não se tornou proprietário, mas sócio nos lucros e a parceria é uma espécie de “joint venture”, com vigência de dez anos. A Vasco da Gama Licenciamento seria responsável, juntamente com o banco, pela primeira emissão de títulos no mercado de capitais por um time de futebol no Brasil, ao lançarem 34 mil debêntures conversíveis em ações, com valor unitário de R$ l mil e vencimento em 2008.

Já em 1998 o Banco Opportunity comprou 51% das ações do Bahia, transformado em Bahia S.A, por US$ 10 milhões, clube que possui a maior torcida do nordeste brasileiro.  

É importante registrar que o futebol ao virar negócio, torna-se empreendimento volátil, que busca o lucro rápido e os investimentos  assim como chegam retornam à sua origem na mesma velocidade. Isto implica em dizer, na linguagem futebolística, que pode-se montar um grande time para uma competição e desmontá-lo logo a seguir, pois passada esta,  os jogadores estarão valorizados e “prontos” para serem vendidos pela melhor oferta apresentada. E o torcedor que outrora escalava  seu time do coração num piscar de olhos, hoje não consegue escalar sequer a defesa, do goleiro ao lateral esquerdo (ou melhor, ala esquerdo).

Para ilustrar melhor o que queremos dizer sobre o impacto das mudanças do futebol no cotidiano do torcedor, reproduzimos abaixo, texto publicado no jornal O Estado de São Paulo, de 11.08.1999, assinado por Armando Nogueira, uma das maiores personalidades do jornalismo esportivo e defensor da profissionalização:

"Sempre defendi a profissionalização do futebol brasileiro. O que ocorre, por aqui, há meio século, é uma baita pantomina, à sombra da qual se regalam tantos cartolas inescrupulosos. Tínhamos que nos salvar do capitalismo anárquico, sim, mas não precisava exagerar. Não estarão os clubes abrindo mão de sua soberania, em obscuras transações com o capital desnaturado?

Os clubes necessitam de parceiros que entrem com o vil metal, mas será que vai ser preciso vender a alma ao diabo? Pelo visto, estamos caindo nas mãos do que os filósofos chamam de capitalismo tardio, que tem como característica primordial um solene desprezo pelos valores do coração. E não é justamente aí, no coração, que nasce e se fortalece o sentimento clubístico?

Tenho medo que pélo de que o futebol pode deixar de ser um fim para ser um meio. E que a torcida, alma do jogo, possa acabar reduzida à mera condição de mercado.

Que é assustador é”.

FUTEBOL E MÍDIA 

Segundo estudo do Professor e consultor de marketing esportivo da Fundação Getúlio Vargas, Luis Fernando Pozzi , o “produto” futebol atrai no Brasil de 70 a 75% dos investimentos na mídia esportiva (sobretudo a TV), o que equivale a valores anuais em torno de US$ 500 milhões. Levando-se em consideração as demais fontes de receita, o futebol, no Brasil, movimenta cerca de US$ 2 bilhões/ano.

De olho neste mercado, o Clube dos Treze, que reúne as treze maiores agremiações do futebol brasileiro, em 1997 assumiu o lugar da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) na negociação com as tevês dos direitos de transmissão dos jogos do campeonato brasileiro. De acordo com informações divulgadas pela imprensa especializada, em 1998, a Rede Globo e a Bandeirantes teriam pago cerca de US$ 60 milhões pela exibição do campeonato daquela ano, aumentando para US$ 70 milhões, em 1999. Neste ano, com a rumorosa briga entre Clube dos Treze e Rede Globo X Gama, que levou a uma intervenção da FIFA e que resultou na não realização do Campeonato Brasileiro , que é reconhecido pela entidade internacional, e sim na tal Copa João Havelange, que não é reconhecida oficialmente, a esperta Rede Globo diminuiu a importância paga para US$ 40 milhões.

O fato é que existe uma enorme defasagem entre  o que vale um campeonato nacional  no Brasil e o que é pago pelo certame italiano, por exemplo, onde os direitos de transmissão da temporada 1999/2000, foram comercializados por US$ 490 milhões.

No Brasil, embora a tendência aponte para um acirramento da concorrência  entre as televisões, estão evidentes os sinais de uma ditadura deste meio de comunicação de massa  sobre o futebol, exercida pela Rede Globo. A emissora ao adquirir os direitos de transmissão, altera os horários de realização dos jogos, desrespeitando tanto o torcedor que vai ao estádio, quanto o espectador que em muitas ocasiões tem de assistir a partidas de futebol às 21:40 ou 22:00 h em dias de semana, unicamente para não prejudicar as telenovelas água com açúcar exibidas em horário nobre. Ou mesmo simplesmente não transmitir jogo algum, como aconteceu na rodada de meio de semana da Copa João Havelange, nos dias 30 e 31.08.2000.

A mídia esportiva brasileira está recheada de acontecimentos e fatos que  colocam em dúvida a sua credibilidade. Desde Mário Filho, o criador do jornalismo esportivo no início da década de 30, que escreveu um livro intitulado O Negro no Futebol , onde teoriza sobre uma tal democracia racial neste esporte, quando na verdade em muitos clubes os negros sequer podiam entrar, quanto mais jogar futebol, até Galvão Bueno com as suas patriotadas  e seu bairrismo na Rede Globo. A crônica esportiva foi inúmeras vezes acusada de promover jogadores, através de entrevistas pela televisão e rádio, para terem seus passes valorizados e negociados posteriormente, com comissões pagas aos repórteres (caso da TV Bandeirantes, acontecido há poucos anos).

Ou mesmo a própria Rede Globo, protagonista de um fato no mínimo curioso. Em uma entrevista à revista Caros Amigos, de abril de 1997, Juca Kfouri,  conta como foi tirado do ar pela própria emissora, durante um jogo debaixo de muita chuva no estádio da Vila Belmiro, em Santos (SP), somente porque criticara as condições do campo que mais parecia um charco. Ao ser solicitado pelo narrador para comentar uma determinada jogada em que um atacante perdera um gol feito, Juca isentou de culpa o jogador dizendo que o gramado estava em péssimas condições. Ao dizer isto, entrou uma voz pelo circuito interno pedindo para Juca não criticar o gramado porque as placas de publicidade no campo eram da Globo. Minutos depois, outra jogada bisonha e nova crítica. Desta vez, a “voz do dono” entrou novamente pedindo para o narrador não mais chamar o comentarista. Ou seja, o jogo continuou sendo  transmitido literalmente “sem comentários...”.

 A venda de placas de publicidade em estádios parece uma coisa pequena, mas não o é. Ao se firmarem os contratos  entram em jogo uma série de exigências que envolvem desde os clubes envolvidos, os patrocinadores até as emissoras de televisão que detêm os direitos de transmissão. Assim, por exemplo, um determinado clube não pode simplesmente jogar em um estádio que não seja aquele em que estão exibidas as placas contratadas. Para ficar mais claro: o Vitória da Bahia, que tem o seu estádio, o Barradão, em Salvador, onde estão as “suas” placas, não pode jogar na Fonte Nova, também em Salvador, unicamente porque as placas lá são de outros patrocinadores.  

Para se Ter uma idéia de como o negócio de placas é bom, J. Hawilla um ex-repórter  da Bandeirantes – rádio e TV e da Globo – comprou em 1980 a empresa Traffic que cuidava de publicidade em pontos de ônibus.  Em 82, com outros dois sócios, sendo um deles outro repórter da Globo chamado Ciro José, passaram a comprar publicidade em estádios do interior. Como o negócio não estava indo muito bem transformaram a sociedade em empresa de marketing esportivo quando começaram a comprar torneios, campeonatos, a promover eventos. Primeiro foi a Copa América de seleções de l987, realizada na Argentina, e a segunda no Maracanã em l989, onde a empresa não só comprou os direitos de televisão, mas todos os direitos comerciais do evento: merchandising, publicidade estática (placas nos estádios), menos bilheteria.

Hoje, a Traffic de J.Hawilla que nega, mas a imprensa toda afirma ser sócio do presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) Ricardo Teixeira, está associada à HMTF, o fundo de pensão que é dono do Corinthians e são donos de todos os direitos de comercialização dos principais eventos futebolísticos da América do Sul, como a Libertadores, as Eliminatórias, a Mercosul, Copa América, Pré-Olímpico, o Sub-17 e o sub-20. Além disso, intermediaram os contratos de patrocínio da CBF com a Nike e a Coca-Cola, e compraram a programação esportiva da TV Bandeirantes.

Uma escalada impressionante, não? De placas de publicidade em pontos de ônibus a donos do futebol da América do Sul, em menos de vinte anos, é algo assustador.

O futebol brasileiro está nessas mãos. E isso sem falar em Eurico Miranda, Eduardo Viana (Caixa D,Agua-Presidente da Federação do Rio), José Farah (Presidente da Federação de São Paulo) entre outros tantos cartolas reconhecidamente mafiosos. E não é à toa que o torcedor ao se ver alijado desse esporte das multidões, começa, mais uma vez, a se afastar dos estádios, deixando às moscas as arenas em que consagraram os seus  ídolos. A prova está no pequeno comparecimento aos jogos da arranjada Copa João Havelange.


OS ARTISTAS DO ESPETÁCULO

Um dos maiores eufemismos para a profissionalização da gestão do futebol, no Brasil é a argumentação de criar  condições para manter  atuando no país os melhores jogadores. Porém, os números da evasão de jogadores provam o contrário. Senão vejamos: em 1996 foram 153 para o exterior. Em 97, 242 e em 98 mais que o dobro: 530. O ano passado foram 658 e neste ano devem chegar a um grupo de 800.

Esses dados publicados pelo jornal “A Tarde”, da Bahia, em sua edição do dia 22.08.2000, caderno de esportes, página 2, confirmam nosso ponto de vista de que os investimentos no futebol continuam sendo na intenção  de projetar o jogador no mercado brasileiro, para depois vendê-lo pela melhor oferta. No decurso desse processo, uma convocação para a seleção funciona como uma vitrine internacional que faz parte da valorização do passe do jogador. As recentes denúncias contra o atual técnico da seleção, Wanderlei Luxemburgo, de que este recebe comissões nas transações dos jogadores negociados, só fazem confirmar o que qualquer torcedor mais esclarecido já sabia.

Por outro lado, a realidade do jogador de futebol no Brasil, não é apenas aquela de uma vida milionária e glamourosa contada e explorada pela mídia.  Segundo Ricardo Melani em seu artigo O Futebol e a razão utilitarista, publicado no livro Futebol – espetáculo do século, no Brasil apenas 3% do total de jogadores profissionais têm contratos acima de dez salários mínimos;  mais de 70% deles recebem até dois salários mínimos e mais de 90% até cinco.

Então, pode-se dizer, que apenas 3% dos jogadores vivem no mundo de Romário, Marcelinho Carioca, Ronaldinho, Edilson e companhia. Enquanto o restante tem uma condição de trabalho muito ruim: o jogador profissional não tem piso salarial, não tem convênio médico contratual, não tem  limite de jornada de trabalho, não tem aviso prévio e outras conquistas sociais que há muito fazem parte do mundo do trabalho.

Enquanto que na Europa um jogador joga em média cinqüenta partidas por ano, no Brasil, com a proliferação dos chamados torneios caça níqueis, eles chegam a esse mesmo número de partidas em um semestre, o que demonstra o nível de exploração desse profissional.

Isso sem contar o desgaste físico provocado pelas competições e as conseqüentes contusões advindas desse esforço sobrenatural.     

 O cineasta Ugo Giorgetti retrata muito bem em seu filme Boleiros a realidade do chamado mundo da bola, onde entre outras coisas mostra a situação de miséria em que vive um antigo astro de futebol (inspirado no ex-jogador do Santos e da Seleção Brasileira, Joel Camargo).

Ao mesmo tempo retrata a ascensão de um craque atual que tem seu passe negociado com um clube italiano, em uma cena patética, onde durante uma reunião de negociação entre o clube e o empresário do jogador, este em momento algum é consultado ou ouvido.

Um pequeno retrato da nossa realidade.

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