AS DUAS CRISES IRMÃS SIAMESAS: A CRISE DA ECONOMIA
DOS EUA E A CRISE DO CAPITALISMO MUNDIAL
Início de conversa
Suponhamos que uma pessoa qualquer seja acometida de uma infecção ainda não detectada. Suponhamos também que, por conta desta infecção, esta pessoa atinja, por um mês inteiro, uma febre a uma média diária de 40 graus. Se, nos primeiros dez dias, a febre permanecer em 40 graus, nos dez dias seguintes subir para 42 graus e nos dez dias restantes baixar para 38 graus, a pessoa permaneceu febril durante todos os trinta dias. O leve rebaixamento experimen-tado nos últimos dez dias, se a infecção não for detectada e curada, não significa uma saída do estado febril, mas apenas em rebaixamento circunstancial dentro do mesmo estado febril, carac-terizado pela média de 40 graus de febre a cada dia.
As falácias da atual economia política vulgar
Se estivéssemos falando de economia, os economistas oficiais, de colunas de jornais e de noti-ciários de TV, não hesitariam em afirmar que a queda da febre de 42 para 38 graus seria uma "formidável recuperação", ou melhor, uma "saída da crise". Nada mais falso do que uma tal idéia. Permanecem de pé tanto a febre, dada pela média de 40 graus, como a infecção, intoca-da. Deixemos a metáfora e entremos no terreno concreto da economia.
Suponhamos que uma economia cresça seus investimentos, sem parar, durante um ano, a ponto de alcançar uma capacidade instalada capaz de gerar um PIB de 1 trilhão de dólares neste mesmo ano. Seu estoque de capital produtivo instalado teria assim chegado a um ponto que a tornara capaz de gerar 1 trilhão de dólares, em mercadorias, no ano. Suponhamos agora que o nível da atividade geral desta economia, em face de uma recessão, tivesse caído, no final do mesmo ano, em 5%. Desta forma, a economia, não podendo funcionar mais a toda a capacida-de instalada, passaria a funcionar, aproximadamente, com apenas 95% de sua capacidade insta-lada, ou seja, com uma margem de 5% de capacidade ociosa. Se, no ano seguinte, a recessão avançasse a 10%, a capacidade ociosa atingiria aproximados 10%. Se, prolongando o exemplo, no terceiro ano, houvesse uma recuperação de 5%, a capacidade ociosa voltaria aos 5% do se-gundo ano.
O leitor deve estar percebendo que, mesmo com a recuperação de 5% do terceiro ano, a eco-nomia permaneceria funcionando com 5% de capacidade ociosa. Isso quer dizer que, durante os três anos, a economia não teria conseguido deixar de operar com uma certa margem de ca-pacidade ociosa-ou, em outros termos, que a economia teria continuado em recessão, vale dizer, operando em regime de uma crise de superprodução, com capital excedente, com apro-ximadamente 5% do estoque de capital fora de função. Uma queda, num dos três anos, de 5% da capacidade ociosa, não foi capaz de tirar a economia da crise de superprodução. A mistifica-ção dos comentaristas e economistas oficiais e da mídia aparece a partir daí: eles chamam aque-la leve recuperação de 5% de boom, ascensão, como chamam a queda de 5% de um ano qual-quer, de recessão. A verdade é uma só: durante os três anos em questão, a crise de superprodu-ção teria permanecido a mesma, apenas com alguns picos para baixo e outros para cima - am-bos, no caso, de 5% -, porque os picos para cima não foram capazes de superar a situação de superprodução. Isso não é salientado pelos que trabalham mistificando dados e idéias.
O outro erro dos mesmos comentaristas e economistas
A outra falácia consiste em "esquecer" a crise de superprodução e centrar toda a "análise"-pura ideologia - na "crise financeira", como se as duas crises não agissem de forma entrelaça-da e como se, das duas crises, a crise de superprodução não fosse, como de fato é, a crise bási-ca, principal, fundamental. Na verdade, a crise financeira nasce de um excesso de capital-dinheiro, acumulado via coleta direta de mais-valia pelas empresas, ou pelos juros ganhos pelo capital de empréstimo, que, exatamente por conta da superprodução, já não tem como e porque voltar aos investimentos produtivos - e aí, não lhe resta outro caminho senão a especulação financeira, criando "bolhas" de capital fictício artificialmente valorizado que, mais cedo ou mais tarde, tendem também a estourar.
A prova da capacidade ociosa - ou crise permanente - da economia mundial
François Chesnais revelou que a taxa de crescimento anual da economia mundial girava em torno dos 4% ao ano entre 1960 e 1973, caindo para 2,4% entre 1973 e 1980, para cair de no-vo para 1,2% de 1980 a 1993. Isso significa: a economia mundial, em seu conjunto, encontra-se, de fato, numa larga situação de superprodução, vale dizer, operando com capacidade ociosa, desde a crise dos anos 70 até os dias de hoje, situação esta, como é fácil de ser demonstrado, que já está piorando com a atual crise - apenas no começo - da economia dos EUA. Sendo a economia norte-americana, de longe, a principal economia do globo, aquela que mais vende e que mais compra às demais economias, uma paralisação ou um retrocesso, seja em que nível for, de sua atividade refletirá em cadeia em todas as economias do planeta.
Não é por outra razão que a Folha de São Paulo, na sua edição de 15 de março último, escre-veu, alarmada: "A velha crise japonesa casou-se com a ameaça (só "ameaça"?) de recessão nos Estados Unidos e espalhou rebentos pelas Bolsas (só pelas Bolsas?) norte-americanas, Europa e Brasil". Mas, paradoxalmente, nesta mesma edição, na verdade na mesma matéria, ela escreve: "As más notícias foram novos temores sobre a dimensão da baixa da economia dos EUA..." (ou seja, superprodução!). "A deflação no país (Japão) e o recuo nas ações japonesas para o seu nível mais baixo em 16 anos provocaram ainda mais perdas no já combalido sistema bancá-rio japonês, o que por sua vez realimenta a recessão no país". "Os mercados europeus, que pas-saram também a sofrer os efeitos da queda da taxa dos lucros das grandes indústrias de alta tec-nologia, sentiram o golpe japonês". Em todos esses enunciados vê-se um mesmo pano de fun-do: uma crise de superprodução levando estas economias a experimentarem queda nos preços de ações, nas taxas de lucro e a aumentarem a taxa de superacumulação da economia.
Já na sua edição do dia 11 do mesmo mês, a mesma Folha estampava em manchete (caderno B):"Freada dos EUA já trava as exportações" (do Brasil e do mundo. É bom lembrar que as exportações do Brasil para os EUA atingiram, em 2000, US $ 55 bilhões. Se despencarem...). É um gracejo pensar, como é freqüentemente divulgado, que a crise Argentina ou a elevação dos preços do petróleo constituem, como se não fizessem parte da mesma crise mundial, as causas isoladas ou maiores dos perigos que assombram a economia brasileira e as demais eco-nomias.
EUA: uma crise em marcha
Até 1963 a economia norte-americana encontrava-se em recessão; de 1963 a 1966, uma leve retomada, que voltou a frear em 1966; no ano seguinte, uma retomada: crescimento de 7% em 1997; já entre agosto e outubro do ano passado (2000), o crescimento baixou para 2,4%. Mas a desaceleração segue marcha firme. A mesma Folha, em sua edição de 3 de dezembro de 2000, exibia dados que demonstravam uma queda em cadeia dos investimentos em ramos importantes e estratégicos da economia norte-americana: quedas de 8,9% para produtos de madeira, de 2,35 para artefatos de plásticos, 10,8% para a produção de ferro e aço, 13,35 para o ramo têxtil e 14,9% para o ramo têxtil. Caem também os ritmos de vendas de automóveis, de eletrodomésti-cos e da construção civil, todos setores altamente germinativos.
Os fatores centrais desta crise - que a Folha não pode deixar de anunciar - estão aqui: queda persistente da produtividade da economia norte-americana; crescimento proporcionalmente muito mais alto dos investimentos em capital constante (máquinas, instalações, matérias-primas, etc.) em detrimento do capital variável (salários e diversas formas de remuneração do trabalho), gerando uma situação de aumento da capacidade de produção e um relativo decréscimo da ca-pacidade de consumo; aumento recente do desemprego, o que agrava a situação enunciada mais atrás; esgotamento, afinal, da poupança dos cidadãos norte-americanos, acumulada nos anos de crescimento, poupança esta que vinha, até aqui, financiando o consumo e as aplicações finan-ceiras.
Mais mistificação da mídia e dos economistas oficiais
O mais ridículo por parte da imprensa que escamoteia é propagar a falsa idéia de que a recessão da economia norte-americana tem como causa central a política de juros praticada pelo FED (Federal Reserve) do Sr. Greenspan: a recessão teria sido produto de uma política de juros altos e, em contrapartida, a sua superação se daria com uma política de juros baixos - porque aí, não só os investidores teriam dinheiro "mais barato" para ampliarem suas aplicações, como também os consumidores para ampliarem suas compras.
Porém, se verificarmos as causas centrais exibidas no tópico anterior, veremos que a crise se dá em função de causas muito mais sérias, estruturais - no centro a concentração dos meios de produção e da renda em torno de um pequeno punhado de mega-grupos econômico-financeiros -, e que, diante daquelas causas, um mero rebaixamento dos juros pode funcionar, quando muito, como uma contra-tendência sem força duradoura. Como se diz na gíria, "o buraco é mais embaixo". Vale a pena passar mais esta informação ao leitor, para que ele complete, co-nosco, uma visão desmistificada da crise da economia norte-americana e, conseqüentemente, mundial: "O pessimismo atravessou o Atlântico, dando ares de crise ou pelo menos grande ten-são internacional à montanha-russa das Bolsas norte-americanas, afetadas pelos anúncios de quedas fortes nos lucros e demissões nas grandes empresas(só nas grandes?) Ontem, o governo designou mais um pequeno (só "pequeno"?) mal sinal: aumentaram os estoques da indústria e do comércio".
Queda na taxa de lucro, aumento de produtos estocados e demissões são constituintes de uma crise, em marcha à escala mundial, de superacumulação/superprodução, crise que possui, como vimos mais atrás, causas estruturais e que jamais pode ser sanada por um rebaixamento da taxa de juros, como alardeiam. Não se pode curar tuberculoso com chá de limão com alho e mel. A recuperação de uma crise de superprodução passa necessariamente, como foi demonstrado por Marx, por uma quebra dos capitais sobrantes pelos capitais mais fortes e pela inauguração de um novo ciclo - só que esta perspectiva, depois da elevação proporcionalmente maior do es-toque de capital fixo em detrimento da massa de trabalhadores(com salários menores), forman-do a maior onda de desemprego de toda a história do capitalismo, fica cada vez mais difícil.
Para concluir...
Se fica cada vez mais difícil a economia mundial, agora seriamente mais afetada pela crise da economia dos EUA, sair de uma crise de superprodução que dura mais de duas décadas, mais fácil é compreender o chamado "efeito dominó"da própria crise no planeta, que deve ganhar velocidade a partir de agora, e fazer governos e burocratas dos chamados países "emergentes" (de que?) abandonarem seus espasmos de alegria de bobos alegres por experimentarem, até a-qui, em um ano ou em um par de anos, taxas de 3 a 4% de crescimento do PIB, em sociedades naufragadas pelo desemprego, pelos baixos salários, pela violência social daí resultante, pela corrupção empresarial e oficial, pelas baixíssimas condições de educação, saúde e de vida em geral dos trabalhadores e pelo descontentamento social que ganha proporções e que se expressa sob a forma de protestos e motins que se multiplicam também à escala mundial - seguindo uma tendência à identidade e á unificação.
Essas manifestações não tardarão a perceber que a causa central delas está num profundo foco de contradições insanáveis a que chegou a produção capitalista mundial no estágio atual - o estágio da social-democracia, do neoliberalismo e de sua base estrutural, a chamada "reestrutu-ração produtiva", uma viagem de retorno cada vez mais problemático para todo o imperialismo. Aos trabalhadores e desempregados não cabe outra alternativa senão compreender o que se passa neste poço fundo e formularem uma saída anti-capitalista para que a própria humanidade não seja tragada pela barbárie que está sendo cuidadosamente preparada pelo capital, que tem seu "laboratório" de experimentos, que faria inveja aos nazistas de ontem, no povo do continen-te africano, o primeiro (apenas o primeiro) a estar sendo literalmente dizimado.

