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Editorial

A Questão da Mulher é a da Sociedade


 

Não é possível abordar a questão da mulher de forma isolada dos problemas estruturais e conjunturais por que passa a sociedade hoje. Os problemas enfrentados pela mulher, assim como pelos negros, índios, presidiários, sem-terra, sem-teto, "descamisados", descalços e muitos e tantos outros, estão intimamente ligados à decadência crescente do sistema capitalista.

Segundo dados do Banco Mundial, dos 6 bilhões de habitantes do planeta, 2,8 bilhões sobrevivem com renda mensal inferior a 60 dólares mensais, 1,2 bilhão com menos de 30 dólares, 1,5 bilhão de indivíduos não tem acesso à água potável e aproximadamente 125 milhões de crianças em idade escolar não têm quaisquer condições - e direito - de freqüentar a escola.

Sabe-se, ainda, que quatro privilegiados norte americanos - Bill Gates, Paul Allen, Warren Buffett e Lerry Ellison - possuem juntos uma fortuna correspondente ao PIB de 42 nações pobres com uma população de 600 milhões de habitantes, que outros 477 indivíduos possuem uma renda equivalente à metade da população mundial e que apenas cerca de duzentas empresas multinacionais controlam 28 por cento da riqueza mundial.

Este quadro discrepante do capitalismo mundial tende a agravar-se no processo cíclico da crise que se aprofunda, e que naturalmente vai acentuando a concentração da renda, o desemprego, o analfabetismo, as epidemias, a criminalidade, o narcotráfico, o extermínio, o embrutecimento social, dentre muitos outros aspetos.

Neste contexto de crise, a mulher cumpre um papel social que é determinado pelo sistema: luta pela sobrevivência, reproduz e cria filhos, enfrenta dupla jornada de trabalho - trabalho doméstico, não valorizado e não reconhecido, mas necessário à reprodução do capital, e trabalho fora de casa, submetida a baixíssimos salários.

O desrespeito à figura feminina é resultado natural das necessidades imanentes à reprodução de toda a ordem do capital e de um avançado grau de esfacelamento intencional dos valores morais, disseminados pelo sistema, para banalizar sua consciência e seu corpo, tornando-a mercadoria barata e objeto descartável de prazer. Desta maneira, tem razão o sociólogo alemão Robert Kurz quando asseverou que, de um lado, o sistema do capital potencializou o patriarcado ao invés de eliminá-lo e deixou uma armadilha às minorias e às mulheres: não a perspectiva de romper com a formação social que mantém a patriarcado, esta e outras formas de opressão e todo tipo de preconceito, mas sim uma fetichizada luta por "direitos iguais", como se, dentro da ordem burguesa, pudessem existir direitos iguais. A incompreensão do problema nestes exatos termos conduz as minorias e muitos grupos feministas a trocarem de alvo: ao invés de atingirem o sistema, centro universal dessas e de outras determinações, estabelecem uma falsa contraposição, como "homem X mulher", "negro X branco", entre outras. Esta cultura do desrespeito, hoje tão potencializada pela mídia a serviço do capital - ela própria um das maiores fontes de reprodução do grande capital - fragiliza o sentimento de solidariedade tão necessário à organização para a luta e que se estende a todos segmentos da sociedade.

A igualdade de condições almejada pela mulher é uma necessidade histórica que não se restringe apenas a ela, mas a todas as classes, etnias, e segmentos sociais marginalizados do processo produtivo e de qualquer palco efetivo de decisões políticas. A questão central da luta pelo reconhecimento do papel dos marginalizados na sociedade passa necessariamente pela derrubada e ultrapassagem da formação social capitalista e pela instauração de um sistema social que, para reproduzir-se, tem de construir e manter, como necessidade imanente sua, outros pressupostos - pressupostos que excluem a opressão, o preconceito, o patriarcado e a injustiça. Enfim, uma formação social iniciada pelo socialismo, onde todos produzam para o bem comum, onde a ciência, a arte, a cultura estejam a serviço da coletividade e onde a educação, a saúde, o lazer e a dignidade não sejam nem meras palavras vazias e nem privilégio de poucos. Somente sob esta concepção de sociedade, lastreada em outras relações e em outros valores, será possível não apenas à mulher, mas também a negros, índios, homossexuais e outros segmentos oprimidos e anulados pelo preconceito serem reconhecidos e respeitados.

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