LULA: UM CASO NORMAL DE PROCESSO DE COOPTAÇÃO
Ainda está por ser escrita a história do processo de cooptação, realizado pela burguesia, a quadros, líderes, dirigentes, intelectuais, artistas ou simplesmente militantes de esquerda ou do movimento sindical. A história das lutas anticapitalistas dos trabalhadores já reuniu bastante material empírico para uma análise bastante esclarecedora a este respeito. O Brasil também possui uma grande contribuição para a elaboração desta história.
A essência de tal história é esta: o líder começa sua atividade, de modo resoluto, junto aos trabalhadores, nas suas organizações e nos seus partidos políticos, e, a partir de dado momento, sente-se atraído pelos chamamentos da burguesia. Depois de um processo de readaptação, vai parar, a título de continuação da luta pela defesa dos interesses dos mesmos trabalhadores, em alguma alta instância de uma empresa ou do Estado. Uma vez aí instalado, passa a defender os interesses da burguesia, na verdade administrando os negócios e as crises do capital, e, naturalmente, negando tudo o que fez, disse ou escreveu no passado para praticar, entre outras coisas, a repressão sobre os trabalhadores, sempre em nome da disciplina e da ordem... do capital!
Longe de nós a intenção de contar esta longa e complicada história. O que pretendemos aqui é coisa bem mais modesta: além de chamar a atenção para a referida necessidade, motiva-nos tão somente destacar alguns exemplos, aliás muito esclarecedores, entre os quais dois que nos interessam bem de perto: FHC, que já se desgastou, e Lula, o próximo candidato ao desgaste diante do público trabalhador...
Um esclarecimento: a cooptação alcança, também, partidos políticos inteiros, mas a cooptação não constitui normalidade dentro do movimento proletário-antes, constitui o seu capítulo vergonhoso, de exceção, mas de uma exceção que tem causado sérios danos à luta do proletariado contra o capital.
ANTES E DURANTE A SOCIAL-DEMOCRACIA
A história da cooptação começou cedo. Já entre os finais do século XIX e inícios do século XX, Eduard Bernstein e Karl Kautsky, para citar apenas dois dos maiores exemplos, batiam em retirada das hostes do marxismo e das organizações operárias, em troca da defesa da passagem para o socialismo pela via eleitoral ou “da pátria”, no âmbito das primeiras guerras imperialistas.
Mas é no período que tem início depois da Segunda Guerra Mundial, quando a acumulação capitalista explorava o trabalho com base no método fordista de organização do trabalho e da produção, que a cooptação ganha dimensão e regularidade. O método fordista, levado a efeito na base produtiva, necessitava de uma política de Estado (momento superestrutural) que lhe desse suporte político e ideológico. Esta política, inaugurada na Alemanha, foi a social-democracia com suas conhecidas fórmulas de “co-gestão”, “parceria”, “co-responsabilidade”, “participação nos lucros” e outras que tinham e seguem tendo como objetivo desviar a luta dos trabalhadores do alvo anticapitalista e, conseqüentemente, do verdadeiro socialismo.
Da Alemanha, a social-democracia migrou para muitos outros países, chegando a nações como Inglaterra, França, Suécia, Áustria, Espanha, Portugal, Turquia e, um a um, a muitos outros espalhados no mundo todo, com seus respectivos Willy Brandt, Harold Wilson, François Mitterrand, Olof Palme, Mário Soares e outros menos cotados-todos à testa ora de seus partidos social-democratas, ora à testa dos governos de seus respectivos países.
A ALEMANHA: UM CASO PIONEIRO
E O MODELO DOS DEMAIS
A social-democracia alemã ganha impulso a partir de 1959, com a realização do Congresso de Bad Godsberg. Dez anos depois, Willy Brandt, egresso do movimento sindical, é eleito Primeiro Ministro, sob a legenda do Partido Social Democrata Alemão, acenando com o “socialismo” para milhões de trabalhadores. Mais dez anos à frente (1979), o mesmo Willy Brandt e o PSD - à testa do Estado alemão -, ainda falavam de “socialismo”, depois de terem contribuído com a consolidação da Alemanha como o mais importante país imperialista da Europa e a segunda potência imperialista do mundo.
Todavia, a partir de 1974, a social-democracia alemã, agora por meio de seu novo representante no governo, Schmidt, resolve tirar a máscara e assumir publicamente medidas de uma inusitada austeridade. Os capitalistas alemães seguem agradecendo mais estas medidas “socialistas” dos social-democratas. Foi e tem sido assim no mundo todo.
BRASIL: 1º ATO: O PSDB E FHC
O PSDB, partido que hoje se encontra no topo do Estado brasileiro, também nasceu —e até consta de seu programa! — como um partido social-democrata, também ele inspirado, como todos os demais, no PSD alemão.
Seu expoente maior, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, hoje um intransigente neoliberal que ocupa o cargo de Presidente da República pela segunda vez, que já se fez passar até por marxista, faz questão de afirmar publicamente que todos devem esquecer tudo o que ele disse, fez ou escreveu antes-inclusive defesas, como estas feitas a Karl Marx contra o estruturalismo de Althusser e Poulantzas, nas quais afirmava: “A análise da posição política dos grupos na luta de classes é, efetivamente, requisito indispensável para a caracterização concreta das classes sociais (...) A classe não é um atributo que se define por critérios, (...) é preciso compreender as classes por seu lugar na divisão social do trabalho. Esta resulta, por sua vez, do processo social de produção que, nas sociedades capitalistas, ‘significa ao mesmo tempo e num mesmo movimento, divisão em classes, exploração e luta de classes1”. Mas “luta de classes”, “exploração” e coisas do gênero, só servem para ser esquecidas ou praticadas, por quem antes delas falava, do lado e ponto de vista oposto-o lado e ponto de vista do capital, o que pode ser levado a efeito como um neoliberal assumido.
E LULA?
Lula de ontem (das greves do ABC) está para o Lech Walesa das greves e do Solidariedade de 1980, assim como o Lula de hoje (e de amanhã, principalmente se for eleito Presidente da república) está para o Lech Walesa tornado Primeiro Ministro Polonês. Antes, um líder à frente de sua classe; depois, um líder a serviço do Estado do capital. Antes, dirigindo greves e manifestações; depois, reprimindo-as.
O processo de cooptação não se dá de uma vez só, ou seja, apenas quando o ex-operário, ou ex-intelectual marxista (ou social-democrata) se instala numa das cadeiras do Poder (como primeiro ministro, presidente, senador, deputado, governador, ministro, prefeito, vereador, dirigente de empresa estatal, etc.). Na verdade, quando um ex-dirigente destes alcança uma destas cadeiras, ele já foi “reeducado” desde muito antes. Vamos examinar um pouco melhor o caso de Lula.
Nada tão abjeto como as revistas publicadas para uma “suave” informação-na verdade uma brutal alienação-de uma classe média à qual apraz deglutir todo gênero de propagandas e notícias banais, ora sobre futricas palacianas, ora sobre a banal vida de empresários, das estrelas dos esportes, do cinema e da TV, como as que trazem revistas como Veja, Isto É, Exame e muitas outras. Mas, acidentalmente, estas notícias podem comportar informações que, distanciadas das matérias torpes nas quais são veiculadas, podem servir para análises como a que aqui fazemos.
Sem precisar entrar no mérito da matéria, listemos as frases, registradas por Veja (edição de 4 de julho deste ano), proferidas por Lula nos vinte anos transcorridos entre 1981, quando era um militante sindicalista, e 2001, quando se lança, pela quarta vez, como candidato à Presidência da República.
Em junho de 1981 Lula julgava a si e ao PT como quadro e partido de “esquerda”. Dizia: “Além de o PT ser um partido de esquerda, é um partido que tem um objetivo socialista”. Em 1985: “Não podemos, não queremos e não devemos pagar a dívida externa”. Em 1986: “Quando chegarmos ao socialismo vamos dizer como ele será”.Em 1989: “Onde tiver um terreno vazio o trabalhador sem moradia deve invadir”. Lula, que nunca foi um socialista-até porque, como acabamos de ver, absolutamente nada sabia acerca de socialismo-, estava apenas no estágio do Lech Walesa, seu amigo, de 1980: não passava de um social-democrata ainda radical e inserido numa luta anti-ditatorial.
Já onze anos depois, isto é, em 1998, quando sua metamorfose já estava em curso, ou seja, quando sua transição para a condição de neoliberal apenas apontava nas idéias suas e da cúpula de seu partido, o PT, Lula muda de discurso e fala de outra maneira. 1998: “Podemos fazer alianças sem nos prostituir”. 2000: “O PT não está propondo o calote das dívidas externa e interna. Nós queremos, sim, a auditoria da dívida externa”. Comparando suas idéias de 1981 a 1989 com as de 1998 a 2000, podemos ver que também a Lula faltou dizer: “Esqueçam de tudo o que eu disse e fiz no passado”.Se tivesse feito esta lembrança, nos ajudaria a constatar melhor que a metamorfose de todos os social-democratas e “marxistas” do palanque ao Poder é uma só - e, nos dias de hoje, com um único fim e endereço -: tornarem-se neoliberais de puro sangue.
Vejamos o Lula atual. Ano 2001: “Eu acho que essa discussão numa campanha eleitoral, capitalismo e socialismo, está defasada e fora de época”. Ainda em 2001: “Existem contratos que não podem deixar de ser cumpridos, mas isso não significa que sejamos obrigados a concordar com eles”. As duas últimas opiniões de Lula poderia muito bem ter saído dos lábios do próprio FHC. Isto significa que Lula e seu partido, o PT, já estão prontos e paramentados para assumirem a chefia do Estado neoliberal brasileiro como manda o figurino do atual estágio do capitalismo “globalizado”.
Não há mais dúvidas: Lula e o PT já são, na prática-e também nas idéias-, neoliberais. Só lhes falta o ato formal de ocuparem o Palácio do Planalto. Quanto a esta verdade, os trabalhadores, talvez mais cedo do que se pensa, terão a amarga oportunidade de comprová-la-o que certamente servirá para avançarem na sua educação política e, portanto, na busca de caminhos que não os da social-democracia para atingirem seus objetivos de classe.
1 Cf., Althussserianismo ou marxismo?-in Estudos CEBRAP, janeiro 1973.

