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EDITORIAL


 

PARA PENSAR A ARGENTINA

Crise! Nenhuma outra categoria poderia caracterizar melhor o atual momento vivido pela sociedade do mundo globalizado do que esta. Dentre as mais diversas acepções do termo encontrado nos dicionários, muito embora todas elas estejam rel acionadas, numa situação muito mais de complementaridade do que de oposição umas às outras, algumas delas nos dão uma dimensão mais precisa do que é possível ser visto e sentido hoje no planeta. Vejamos: “Ponto de transição entre uma época de prosperidade e outra de depressão, ou vice-versa”. Ou ainda, “complicação e agravamento da intriga, que leva a ação dramática a uma catástrofe ou a conseqüência grave e decisiva”. E “situação grave em que os acontecimentos da vida social, rompendo padrões tradicionais, perturbam a organização de alguns ou de todos os grupos integrados na sociedade”.1   

Vivemos num mundo em crise. A sociedade contemporânea convive com essa situação como algo inexorável, a tal ponto que uma geração inteira já nasceu com esse sentimento tão incorporado a sua realidade que a crise deixou de ser apenas um substantivo abstrato e passou a caracterizar também um determinado comportamento, próprio de uma realidade tão presente como essa.

Mas, que crise é essa? Qual a sua origem? De onde é que vem? Como buscamos partir dos elementos mais estruturais da constituição da sociedade capitalista, procuraremos abordar algumas características fundamentais, ou seja, alguns dos pressupostos básicos da organização do capital no mundo contemporâneo, para entendermos, por exemplo, como a sociedade argentina passou a ser a principal vitrine das conseqüências mais sensíveis da “crise do mundo globalizado”.  

Como estamos falando de uma crise que tem a sua origem no aspecto econômico, privilegiaremos esse viés para compreender quais são os seus reflexos e desdobramentos em alguns outros aspectos da vida social. Assim é que para comentarmos um pouco da atual conjuntura na Argentina acreditamos fazer-se necessário compreender um pouco dos movimentos do capital em seu caráter ontológico para, a partir de então, desenvolver de maneira sucinta, alguns aspectos da grande crise global na qual a economia portenha está inserida.

Desde o início da década de 1970 o conjunto da economia mundial começou a enfrentar um novo ciclo de desaceleração. O ritmo da produção de mercadorias foi contido à medida que a capacidade instalada do parque industrial começou a dar sinais de ociosidade.

Já que não foi possível comercializar todas as mercadorias produzidas, seguindo a lógica dos donos do capital, foi preciso então encontrar novos mecanismos que pudessem conter o decréscimo vertiginoso das taxas de lucro das empresas capitalistas. A gigantesca elevação da “composição orgânica do capital”, ou seja, a grande concentração dos investimentos em novas tecnologias capazes de produzir mais em menos tempo, somada à inelasticidade dos mercados consumidores, trouxe junto consigo mais uma faceta perversa, característica do modelo econômico capitalista.

O desemprego voltou a ser um fantasma cada vez mais presente na vida daqueles que ainda não foram tragados por ele. Para os capitalistas, esse é um mal necessário, mesmo que hoje ele assuma contornos muito mais definitivos. O “desemprego estrutural” tornou legiões de seres humanos totalmente excluídos dos espaços convencionais de sociabilidade, ao passo que, para a economia globalizada, uma parte significativa do planeta, notadamente a África e parte Ásia e da América latina, transformou-se em “economias prescindíveis”, exatamente por sua incapacidade estrutural de inserir-se novamente no mercado de trocas mercantis.

A crise de superprodução demonstrou também a exaustão dos mecanismos institucionais e políticos constituídos internacionalmente desde o final da última grande guerra mundial. Organismos como o GATT (Acordo Geral de Tarifas) foram substituídos por novas instituições como a OMC (Organização Mundial do Comércio) e outros ganharam novas feições para fazer frente às demandas que se colocavam pela “Nova Ordem Mundial”. Esse foi o caso do FMI (Fundo Monetário Internacional); BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e Banco Mundial.

Esses novos organismos se encarregaram também de propagar pelo mundo o novo modelo de gestão das empresas capitalistas e do próprio Estado. O modelo neoliberal passou a ser a receita universal prescrita pelos economistas do FMI para todos os países que viessem a enfrentar maiores problemas econômicos. Obviamente que tais países seriam aqueles nos quais os níveis de competitividade industrial estivessem muito aquém dos padrões internacionais.

Assim, à medida que crescia o seu endividamento, as chamadas nações “emergentes” tornaram-se reféns do modelo de “desenvolvimento” emanado do Fundo de Monetário Internacional. Nessa medida, não só “los hermanos” argentinos estão sofrendo os reflexos da crise contemporânea; países como o México, Indonésia, Turquia, Coréia do Sul, Índia e, é claro, o Brasil, também se ressentem das conseqüências que o mundo globalizado legou para as atuais gerações.

Dessa forma, procuramos entender os elementos particulares da conjuntura argentina a partir da sua inserção no grande imbróglio que é a assim chamada “aldeia global”. No início do século XX, a Argentina, orgulhosamente, ostentava o título de sétima economia do planeta. Com um processo de industrialização em curso, aquele país implementava paulatinamente a urbanização da sua vida social. Buscando superar o modelo agro-exportador, a indústria argentina fez com que a sua expectativa de crescimento contínuo apontasse para a construção de uma grande metrópole européia ao sul do equador. Paralelamente, a sociedade argentina também apresentava, até o final da última década do século passado, indicadores sociais muito acima da média latino-americana. Tudo foi abaixo no rastro do acirramento das contradições capitalistas e do fetiche de uma economia controlada pelo câmbio. São ecos dos tempos modernos da globalização.

 1 Novo dicionário AURÉLIO da língua portuguesa, 2ª edição, Ed. Nova Fronteira.

 

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