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março 2006

O LUCRO DOS BANCOS

E a expropriação da sociedade


O jornal Folha de São Paulo do dia 08 de maio de 2002 destacava em manchete: “Lucro do Banco do Brasil sobe 155%”. Em matéria de 12 de fevereiro de 2003, o mesmo jornal chamava atenção, mais uma vez, para o lucro daquele banco: “Lucro do BB sobe 87% e vai a 2 bi”. Com os demais bancos a história não foi diferente: recordes sobre recordes, afinal, os bancos ganham cada vez mais.

Às vésperas do carnaval deste ano, para deleite das hienas do sistema financeiro, novos balanços, correspondentes ao exercício de 2005, foram divulgados. O lucro do Bradesco, de R$ 5,514 bilhões, foi o maior da história dos bancos no Brasil. O Itaú também quebrou o seu recorde e emplacou um lucro de 5,251 bilhões. Foi 39,06% maior do que o do ano anterior, enquanto o Bradesco, pasmem, teve um lucro 80,2% superior ao exercício de 2004.

Enquanto isso, a Caixa Econômica Federal também teve o maior lucro de sua história em 2005, a “irrisória” quantia de R$ 2,07 bilhões; e o BB, para não fazer feio, também quebrou o seu recorde, com um lucro de R$ 4,154 bilhões. Enquanto o BB crescia 37,4% em relação ao ano de 2004, a CEF crescia 46%.

O que nos dizem todos esses números? Serão eles motivos de orgulho para os brasileiros, ou um dos medidores que indicam o quanto todos nós, trabalhadores, estamos sendo lesados? Vejamos algumas frases do presidente Lula, ou melhor, do candidato Lula, em relação ao então Governo FHC: “Banqueiro tem que ter medo do PT. Não é normal num país os bancos ganharem o que estão ganhando aqui” (Revista Caros Amigos, novembro de 2000).

Comparem então o que ganhavam em 2000, 2002 e o que estão ganhando agora... viram? É muito, muito maior hoje o lucro dos bancos do que nos anos FHC. Mas, passemos mais uma vez às frases denunciadoras de Lula: “Tendo em vista os lucros que tiveram o Itaú, o Bradesco e outros bancos, o Fernando Henrique Cardoso não é nem pai; ele é pai, mãe, avô, avó, tio e tia do sistema financeiro, que nunca ganhou tanto dinheiro como está ganhando agora.” (Pasquim, fevereiro de 2002). A considerar o sistema de parentesco proposto pelo candidato Lula, como classificaríamos hoje o Presidente Lula em relação ao sistema financeiro? A cortesã do sistema? Ou então... Não senhores leitores, não tentemos isso por aqui, para não baixar o nível do texto.
 
Mostremos então que, nos três anos do governo Lula, os cinco maiores bancos do Brasil (Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, Santander/Banespa e Unibanco) lucraram 44,125 bilhões. Esses mesmos bancos, nos oito anos do Governo FCH (vejam bem, todos os oito anos!) lucraram 34,366 bilhões. Ou seja, em 3 anos já lucraram 28,4% a mais que em todo o criticado governo anterior, o ex-pai dos bancos (todos esses dados podem ser coletados fartamente em jornais como O Estado de São Paulo, Gazeta Mercantil, Folha de SãoPaulo, etc).

Não se trata aqui de uma mera e mesquinha disputa para saber quem é mais “generoso” ou “entreguista” com o setor tal ou qual da economia. Trata-se, isto sim, da necessidade de percebermos, todos nós, trabalhadores, uma característica importante do atual momento do capitalismo no Brasil e no mundo. Um momento de concentração de renda violento, que beneficia sobretudo o setor financeiro, aqui e acolá, independente do governo de plantão.

 

COMO TE SURRUPIAM LEGALMENTE

Existem  várias maneiras de explicar a forma como os bancos expropriam da sociedade os seus lucros astronômicos. O ritmo de crescimento dos bancos sobre seu patrimônio líquido, em 2005, foi de 26,9%. Isso significa que em menos de quatro anos cada um dos bancos dobraria o tamanho de sua riqueza, sendo para alguns deles, como o Bradesco e Itaú, necessário apenas três anos para dobrar de tamanho (Valor   Econômico). Como conseguem essa proeza?  Começa pela verdadeira extorsão que representam as tarifas bancárias. Compulsoriamente cobram pela manutenção da conta, por extratos, folhas de cheque, abertura de empréstimos ou qualquer serviço. Em resumo, para qualquer um de nós, ser “bancarizado”, representa ter democraticamente tungados os nossos bolsos pelos poderosos tentáculos do sistema financeiro. Esse saque representou, segundo o Jornal Valor Econômico, 25% do lucro líquido dos bancos no ano em questão, tendo as receitas sobre prestação de serviços aumentado 26,2% em 2005.

Em seguida vêm o que chamam de “spread” bancário. O que quer dizer isso? É simples, os bancos tomam o seu dinheiro pagando, por exemplo, para a poupança, TR mais 6% ao ano para o poupador. Aplica esse dinheiro ou compra Títulos da Dívida Pública, que paga hoje os 17,25 da taxa Selic. Já de início há um ganho estupendo, considerando o índice e o volume de recursos; mas a mamata é muito maior quando consideramos a “indústria de empréstimos” que há no país. Em nenhum lugar do mundo se paga tanto por um empréstimo como no Brasil. Um levantamento do Jornal Folha de São Paulo (vide edição de 16/02/2006) em 107 países, dá conta de que os bancos brasileiros cobraram, no segundo trimestre de 2005, uma taxa real de juros de 44,7% ao ano. Em seguida vem Angola (43,7%), Gâmbia (31,8%), Gabão (18,2%) e Moçambique (14,7%). A taxa média dos 107 países foi de 7,4% ao ano, enquanto o Brasil ficava em primeiríssima posição com 44,7%. Empréstimo no Brasil é roubo, qualquer que seja o banco. Se for financeira então...

Assim se desvenda a mágica dos bancos e os seus lucros exorbitantes. Foi, sobretudo, o aumento dos empréstimos por pessoas físicas, o aumento do crédito, que explicou boa parte dos lucros bancários em 2005. Claro que os bancos ganham em diversos outros negócios e só citamos aqui dois ou três dos que mais representam extorsão, principalmente aos trabalhadores, obrigados a receberem seus salários em instituições bancárias, a tomar “empréstimos em consignação” e deixarem reféns parte dos seus salários para as cada vez mais gulosas instituições financeiras.

Uma outra notícia que chamou a atenção às vésperas da festa do Momo (de propósito?) foi a divulgação, pelo IBGE, do crescimento de apenas 2,3% do PIB brasileiro no mesmo ano de 2005. Apesar das bravatas do “espetáculo do crescimento” a economia brasileira patina sem sair do lugar. O que acontece se considerarmos os dois indicadores (crescimento dos Bancos X crescimento do PIB) confrontando-se? Podemos considerar que em um todo articulado o segmento financeiro abocanha cada vez mais uma fatia maior desse todo, o que significa, na prática, concentração de riqueza, pois a riqueza dos bancos sai de algum lugar, não é abstrata, não vem por mágica. E concentração de riqueza representa, no seu reverso, aumento da pobreza, aumento da miséria, que nem as esmolas do bolsa-família conseguem mascarar.

A propósito, também a Folha de São Paulo, durante o carnaval, divulgava que os bancos são hoje os maiores financiadores do caixa do PT. Suas contribuições aumentaram, entre 2002 e 2004, em cerca de 1.000%. Não é miragem, é “apenas” 10 vezes mais! Pois é PT... pois é Lula; essa não é bem uma relação familiar, mas sigamos em frente pois a história continua...”

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