O IMPERIALISMO NO SÉCULO XXI: A CRISE AMERICANA
COMO EPICENTRO DA CRISE MUNDIAL
“Nada acrescentam à riqueza da terra, desde que só produzem para finalidades bélicas, sendo o propósito de fazer guerra estar sempre em melhor posição para fazer outra guerra” (1984 – George Orwell)
“A guerra do século XXI que se perfila no horizonte não só não é ‘vencível em princípio’, mas, pior do que isso, é em princípio não vencível” (István Mészáros)
“Quem acredita no Diabo já começa a pertencer-lhe” (Doutor Fausto - Thomas Mann)
No seu famoso “1984” George Orwell já apontava que, para apreender a natureza da guerra, um dos primeiros aspectos a serem compreendidos é que ela não pode ser decisiva 1. Ela deve durar, durar e não acabar nunca. Uma guerra assim, sem fim e sem vitória é necessária ao capitalismo em crise. Uma guerra que, como as outras, devore os excedentes de mercadorias que o restrito mercado mundial já não absorve pelas vias genuinamente econômicas, uma guerra que provoque destruição e matança e que reclame reconstrução e reordenamento político, para gáudio dos conglomerados capitalistas e da política imperial.
Mas a guerra do século XXI deve dar cabo não apenas do excedente de mercadorias, mas do excedente de vidas humanas, que o capitalismo já não consegue empregar e que se constitui em peça supérflua, onerosa e perigosa. Falamos, claro, da lógica da produção e do mercado, da classe capitalista e dos seus respectivos Estados. O não aproveitamento de milhões de trabalhadores no mundo revela a incapacidade do sistema em absorver mais portadores de trabalho abstrato, o que evidencia a contradição estrutural em que está metido e põe a nu vários dos mecanismos de erradicação da vida de que lançam mão para dizimar a população sobrante.
Mas continua sendo preciso ludibriar para fazer a guerra, é necessário manipular as consciências e o medo da população, fazê-la acreditar numa vitória, na “sua” vitória, que trará a “sua” segurança. Assim, a destruição alheia passa a ser não apenas aceitável, mas justificável. Rotular o fanatismo, o extremismo e a tirania do outro, enquanto se esconde a sua própria, faz parte da astúcia psicológica desencadeada pelas vozes oficiais e oficiosas do Estado e da mídia. O contraponto desse processo é também alimentar o fanatismo, a crendice e estupidez do “eu”, ou melhor, da própria população. Para que esta não se constitua também em empecilho aos ditames imperiais, é necessário criar e solidificar uma falsa visão de mundo, manter sob controle e manipulação, senão toda a população, ao menos a maior parte dela, ao passo em que se mantêm as hierarquias e a estrutura da sociedade.
O que tem de novo no presente século é que, ao contrário do que dizia Clausewitz, 2 a guerra já não é apenas “a continuação da política por outros meios”, mas faz parte de um mecanismo de dominação geoestratégico global empreendido por um país que quer se impor como o Estado internacional do sistema capitalista enquanto tal: os Estados Unidos da América. 3 Muitos teóricos, como István Mészáros 4 têm concordado quanto ao fato de vivermos hoje uma nova fase do imperialismo, na verdade, uma fase qualitativamente diferente do próprio Modo de Produção Capitalista. Esta novo momento teria iniciado no início dos anos 70, quando se inaugurou a atual crise estrutural do sistema, acirrou-se após a adoção do neoliberalismo em escala mundial nos anos 80 e 90, mostrou os graves sinais de turbulência na crise do México, em 1994, na crise asiática de 1997, seguido da Rússia, Argentina e até passou pela pátria do Tio Sam, quando do estouro da bolha especulativa das empresas de tecnologia nos EUA, fazendo o mundo acordar do curto sonho da “nova economia”.
Mas o que se quer dizer com mudança qualitativa no capitalismo? Quais são os sinais mais evidentes de que vivemos uma época de transformação no Modo de Produção? Para onde nos levará essa mudança? Trata-se de uma opção dos principais gestores do sistema, ou foram compelidos a isso pela crise econômica? Ajudar a entender algumas dessas questões candentes da nossa realidade será um dos propósitos deste artigo, assim como abordaremos a crise no coração do império, as medidas tomadas para tentar resolvê-la, sobretudo pelos Estados Unidos, e os interesses daquele país nas guerras que já aconteceram e nas que darão seqüência ao seu projeto de dominação frente a todos os povos do mundo.
UM NOVO MOMENTO DO CAPITALISMO?
O desdobrar da crise de superprodução iniciada nos finais da década de 60 e início dos anos 70 trouxe ao mundo transformações qualitativas de impacto. Características próprias desse novo momento levaram o regime de acumulação capitalista a um novo patamar. É o que François Chesnais chama de “regime de acumulação predominantemente financeira”. Nessa nova fase, para compreender o movimento do conjunto do capital, segundo esse autor, é necessário apreender os movimentos gestados nessa esfera financeira. Muitas vezes é preciso partir dela própria, a atual “ponta de lança do movimento de mundialização da economia”. 5
Antes de entrarmos em alguns aspectos que dizem respeito mais propriamente ao campo financeiro, é preciso pontuar que a ascensão do capital financeiro e das políticas neoliberais que lhe dão abrigo deu-se por conta da incapacidade do capital produtivo de continuar tendo taxas de lucros tais como no ciclo do pós-guerra. Ou seja, a crise atual, ao contrário do que ventilam alguns economistas, não é conseqüência da ascensão do capital financeiro, mas este é que é uma conseqüência da crise, cuja raiz está no excesso da capacidade de produção. 6 Os capitais passaram a se deslocar exaustivamente para as finanças a partir do momento em que estava caracterizada uma crise de superprodução, taxas de lucro insignificantes e os mercados já não podiam mais absorver todas as mercadorias que o sistema era capaz de produzir. A queda da lucratividade das economias foi o sinal de alarme interpretado pelos capitalistas como o momento para diversificar suas aplicações, não exatamente em outros setores do capital produtivo, mas na esfera eminentemente especulativa e parasitária.
O passo seguinte e lógico desse processo foi a adoção mundo afora do neoliberalismo como política do capital a partir do final dos anos 70. Desde então, e num ritmo crescente, foram questionadas as políticas keynesianas como incapazes de fazer voltar a lucratividade do capital, e o desemprego foi provocado deliberadamente, a fim de reduzir os custos salariais e aumentar a exploração do trabalho. 7 Veio também a chamada “reestruturação produtiva”, que tratou, dentre outras coisas, de promover um enxugamento geral de custos nas empresas. A rearrumação, que sempre visou o retorno de altas taxas de lucro, privilegiava as empresas que funcionassem com custos baixos e alta lucratividade, o que acirrou o processo de concentração de capitais e desemprego em massa, chamado de desemprego estrutural.
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2 General prussiano que escreveu em 1832 um famoso tratado intitulado “Da Guerra”. É lembrado freqüentemente por sua afirmação de que “a guerra é uma continuação da política por diferentes meios”.
3 István Mészáros, “O Militarismo e as Guerras Vindouras” (7 de julho de 2003) http://resistir.info/crise/militarismo.html
4 Escritor e teórico húngaro que lançou recentemente no Brasil algumas de suas publicações importantes, como “Para Além do Capital” e “O Século XXI – Socialismo ou Barbárie”, ambos pela Editora Boitempo.

