“Quando ‘novos’ personagens entram em cena”1
No final do mês de março de 2004, Carlos Pronzatto, cineasta argentino radicado há algum tempo em Salvador, lançou na Sala Alexandre Robatto, uma das suas mais novas películas, trata-se de “A Revolta do Buzu”. Este mesmo documentário foi reapresentado no salão nobre da reitoria da UFBA no dia 02 de setembro do mesmo ano, como parte do conjunto de atividades que marcaram o primeiro aniversário da grande mobilização ocorrida na soterópolis no final de agosto e início de setembro de 2003, que sacudiu a cidade com paralisações das principais vias, ocupadas que foram pela juventude, estudantes em sua maioria, reivindicando a redução da tarifa do transporte coletivo.
Seguindo os passos do movimento de Salvador, outras manifestações similares ocorreram também em Fortaleza (CE), Florianópolis (SC), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).
Muito embora a gestação e a direção do movimento tenham sido reivindicadas Por pretensas lideranças do “Movimento Estudantil organizado”, ficou evidente que o leitmotiv das manifestações veio ao encontro dos grandes indicadores da desigualdade social reinante em todo o país e em Salvador em específico. Segundo o próprio prefeito da cidade àquela época, em pronunciamento recente, cerca de 55 milhões de brasileiros andam a pé pelas ruas dos grandes centros urbanos em função da impossibilidade completa de assumir os custos das tarifas do transporte coletivo. Como Salvador, já de muito, lidera o ranking do desemprego nas regiões metropolitanas do país, o apoio da população, notadamente dos trabalhadores (empregados ou não), que são os potenciais usuários do sistema de transporte coletivo, foi fundamental para que o movimento ganhasse contornos que transcenderam a uma reivindicação exclusivamente estudantil e assumisse ares de uma verdadeira mobilização de massas das camadas populares, protagonizada dessa feita, pela prole, ainda em estágio estudantil, mas em direta relação com os elementos objetivos passíveis de gerar uma identidade de interesses com a classe trabalhadora ativa e/ou em reserva.
Tentamos aqui fazer a descrição de alguns fatos ocorridos naquele período que, por um lado demonstram que a mobilização foi para além de um movimento meramente estudantil e por outro comprovam a emergência de “novos personagens” no cenário das lutas empreendidas por aqueles que são os maiores prejudicados pelo atual modelo econômico.
Para os soteropolitanos, especialmente para aqueles “bem-nascidos” na Boa Terra, o mês de setembro marca o início de mais uma temporada. Afinal, quando setembro entra anuncia a chegada dos, ainda tímidos, raios do sol de primavera. Muito embora as nuvens carregadas, (que por aqui nunca foram bons presságios) ainda tenham sido vistas – e sentidas - aqui e alhures, já se tornara evidente, naquele final de inverno de 2003, que o povo da Soterópolis, já se preparava para o início de mais um reinado de Hélio, o astro-rei.
Assim foi que naquele ano, pelo menos na capital da Bahia, o início do mês de setembro se deu ainda no dia 28 de agosto, pois desta vez, além de prenunciar a chegada das flores, o mês nove, trouxe também um colorido todo especial para as ruas de Salvador. Movidos por desejos que vão desde aquele mais sensível à flor da pele - o de poder continuar “pegando buzu” - passando por sentimentos bem característicos de auto-afirmação, tão comum nesse período de suas vidas, até o mais elaborado conceito “homogeneizador” (me permitam o neologismo) do espaço social: a oportunidade de “fazer-se” e de “sentir-se” “cidadão”, exercitando a “cidadania”2 , milhares de jovens, crianças e adolescentes tomaram de assalto as ruas da terceira maior cidade do país, promovendo algumas das mais significativas manifestações juvenis do presente século nessa cidade.
O estopim
A própria Prefeitura deu o “mote”: mediante assinatura de um decreto municipal, oficialmente anunciado na sexta-feira, dia 29/08, o então prefeito Antonio Imbassahy, majorou em R$ 0,20 (vinte centavos), ou seja 16% a tarifa do transporte coletivo. Foi o suficiente para desencadear a mais recente mobilização da juventude soteropolitana que, com uniforme escolar em sua maioria, assumia a cena nas ruas e se constituia na mais nova referência de rebeldia para os movimentos sociais locais.
ADQUIRA A REVISTA GERMINAL E LEIA A CONTINUAÇÃO DESTE ARTIGO.
ENTRE EM CONTATO
1- O título do texto, tomamos de empréstimo do importante livro de Eder Sader, publicado pela primeira vez em 1988 pela Ed. Paz e Terra no Rio de Janeiro
2- O conceito de cidadania é aqui apresentado criticamente como um elemento capaz de homogeinizar os mais diversos atores sociais, suprimindo os seus conflitos de classe e construindo uma perspectiva fetichista de uma sociedade que é estruturalmente estratificada e procura se mostrar acessível a todos, por meio da conquista da assim chamada “cidadania”.

